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EDIÇÃO #798 • 14/10/2026 • THEDROPS.COM.BR |
Bom Dia, Dropper!
Hoje eu aprendi: que já é mais barato contratar o lançamento de um foguete espacial Falcon 9 da SpaceX (por US$ 74 milhões) do que fretar um navio-tanque petroleiro VLCC para transportar carga do Golfo dos EUA para o Extremo Oriente (US$ 80 milhões)!
No TechDrops de hoje, direto ao ponto:
•︎ Amazon: Independência ou morte Nvidia
• Jev: agora com selo a16z de aprovação
• Trending: Pesadelo na cozinha no supermercado
•︎ Character AI: unicórnios também falecem
• Contra Dados Não Há Argumentos: preço dos tokens cai, do compute sobe!

AQUISIÇÃO
Amazon: Independência ou morte Nvidia
TL;DR: A big tech pode pagar US$ 7 bilhões por uma startup que é um atalho para sair dos domínios de Jensen Huang.

A Decart faz uma coisa aparentemente sem graça: permite que desenvolvedores troquem de chip sem reescrever o código. Parece simples, mas com tantos admiráveis chips novos surgindo… a SpaceX olhou, Nvidia negociou, a Anthropic tentou, mas quem levou foi a Amazon, que está perto de pagar ~US$ 7 bilhões pela startup.
Quem está tentando produzir os próprios chips?
» Nvidia, a precursora das GPUs, com a família Blackwell e Vera Rubin.
» AMD, a eterna vice, com a linha Instinct.
» Google, pioneiro desde 2015, já na 8ª geração de TPUs.
» Meta, com a família MTIA, quatro gerações anunciadas de uma vez.
» Microsoft, com o Maia 200, feito sob medida pra Azure.
» Amazon, com o Trainium3, onde rodam Anthropic e OpenAI.
» OpenAI, com o Jalapeño, chip de inferência feito com a Broadcom.
» Anthropic, ainda sem chip, mas já montando o time pra fazer um.
» Apple, com o Baltra, chip de servidor em parceria com a Broadcom.
» Tesla, com o AI5, depois de enterrar o Dojo.
» Alibaba, com a linha Zhenwu, que já chegou ao V900.
» Huawei, com o Ascend, a resposta chinesa ao embargo americano.
A lista acima mostra que fazer chip virou esporte de big tech. Só que o moat da Nvidia nunca foi o silício, e sim o CUDA: quase duas décadas de bibliotecas, ferramentas e uma geração inteira de desenvolvedores treinada para pensar em GPU, e o chip sem software é basicamente uma Ferrari sem estrada:
O que a Decart vende: o DOS (Decart Optimization Stack), uma camada que roda o mesmo workload em GPU da Nvidia, TPU do Google ou Trainium da Amazon.
Por que a Amazon: a AWS deu acesso antecipado ao Trainium3 pra Decart ainda em 2025. A relação é antiga, e o Trainium precisa de um motivo pros clientes saírem do CUDA.
A conta: em 2015 a Amazon pagou cerca de US$ 350 milhões pela Annapurna Labs, o time que criou o Trainium. Agora paga ~20x isso pela ponte que leva cliente até ele.
O bônus: a Decart também desenvolve world models (Lucy e Oasis), que geram ambientes 3D em tempo real, um brinde extra.
O valor da Decart está em funcionar em qualquer chip. O valor da AWS está em oferecer uma infra cloud que tenha todo tipo de chip. O valor desse casamento está em, quem sabe, conseguir tirar Jensen de cima do cavalo.

MUNDO AFORA
→ OpenAI encontrou um dispositivo de gravação sofisticado escondido em uma sala de reuniões, denunciou ao FBI, que prendeu o funcionário saudita.
→ Bumble, o Tinder em que só as mulheres podem dar o primeiro passo, é vendido por US$ 1,3 bilhão e deixa de ser listado na bolsa.
→ Meta lança seu primeiro modelo de IA de fronteira e entra de vez na disputa do mercado com Anthropic, Google e OpenAI.
→ Getty Images declara falência e vai se tornar privada após acordo de US$ 533 milhões com a firma de equity Koch.
→ Palantir diz que o Pentágono já substituiu todas as operações que tinham algum contato com a Anthropic - sem prejuízo ao funcionamento.

CAPTAÇÃO
Jev: se isso, então US$ 7,5 bilhões
TL;DR: Menos de um mês depois do seed de US$ 40 mi, a startup levanta mais US$ 870 mi a um valuation de US$ 7,5 bi.

Na era a.C. (antes do ChatGPT), o IFTTT ensinou toda uma geração a automatizar tarefas com a lógica do “se isso, então aquilo” - e chegou a valer cerca de US$ 250 milhões.
Já na era d.C. (depois do ChatGPT), a TypeSafe colocou a capacidade de julgamento da IA dentro dessa lógica - e levou apenas duas semanas depois do lançamento para ganhar o selo a16z de aprovação, acompanhado de um cheque de US$ 870 milhões a um valuation nada modesto de US$ 7,5 bilhões.
O pulo do gato foi entender que boa parte do trabalho dentro de um software consiste em tomar pequenas decisões simples - e pedir para um modelo de linguagem parrudo para resolver cada uma delas pode sair caro.
O Jev é um "modelo de decisão". Em vez de devolver texto ou código como as IAs que você já conhece, ele usa dados controlados e devolve uma escolha, uma nota ou uma probabilidade: aprova ou reprova, A ou B, 0 a 100.
Aplicações práticas? Substituir chamadas de LLM em tarefas repetitivas, como triagem, moderação, validação e acionamento de agentes.
Mas se todo o dinheiro do mercado parece ir para a IA generativa, o que a TypeSafe fez para convencer os investidores a apostarem nela?
O custo: o Jev cobra US$ 0,042 por milhão de tokens de entrada e zero pela saída. Isso significa que o gasto com IA de uma empresa pode cair algumas centenas de vezes (a própria a16z fala em até 500x).
O pioneirismo: depois do Jev mostrar como se faz, a manada seguiu com a OpenAI, Cloudflare, AWS lançando os próprios modelos de decisão.
Os clientes: a empresa diz ter mais de 1 milhão de usuários e cerca de um terço da Fortune 500 como clientes e supostos US$ 100 milhões de receita anualizada (não confirmados).
A tese da TypeSafe é que decisão simples virou commodity barata. Só que commodity barata é exatamente o tipo de coisa que a AWS entrega de brinde no pacote de cloud - e quando cada decisão vale uma fração de centavo, justificar 75x de receita exige estar em praticamente toda decisão automatizada do planeta.
TRENDING
Pesadelo na cozinha no supermercado
Se desligar o freezer à noite já tirava Jacquin do sério, os hackers franceses subiram a aposta: invadiram controladores de refrigeração em supermercados do país e giraram a chave do resfriamento para aquecimento a 50 °C. Sim, um ataque hacker transformou geladeiras em air fryers.
O tamanho do ataque: cerca de 700 supermercados atingidos, segundo o governo francês, incluindo lojas de redes como Intermarché, Carrefour e Coopérative U.
O prejuízo: €270 mil em perdas estimadas só em duas lojas de Haguenau, com alimentos que precisaram ir para o lixo.
O problema: controladores (firmware) expostos à internet. A Danfoss apontou equipamentos com software desatualizado e outros tão antigos que já não recebiam atualizações de segurança.
Enquanto isso, no mesmo dia, a Anthropic publicou uma pesquisa com uma IA rodando em 15 TV boxes Android. O alerta: até o fim do ano, modelos pequenos podem conseguir se copiar de aparelho em aparelho. Tipo um vírus, mas capaz de ler o manual e entender os caminhos de cada eletrônico.
Os casos não têm relação direta, mas lembram que na era da super inteligência, tudo que é supostamente smart e conectado está mais vulnerável que os dumb e desconectados - e levanta a questão: sua geladeira precisa mesmo de um PhD?
PS: um péssimo dia para a Apple lançar seu primeiro sua primeira linha de produtos para casa inteligente, mas ótimo dia para se tornar uma empresa de US$ 5 trilhões.
LIQUIDAÇÃO
Character AI: unicórnios também falecem
TL;DR: A Character.AI virou unicórnio em seis meses e levou quatro anos para pedir recuperação judicial.

A Character.AI levou apenas 6 meses desde o lançamento do seu produto para se tornar um unicórnio. Mas como os anos passam em idade de cachorro no universo da IA, a startup levou apenas mais quatro anos para entrar em Chapter 11 (a RJ dos gringos) e vai à venda sob supervisão da Justiça.
Fundada em 2021, a Character.AI deixava usuários conversarem com “Characters”, companheiros de IA criados pela própria comunidade. E nos cinco anos de operação, colecionou polêmicas.
Polêmica 1: o início da operação foi marcado pelo uso de personagens protegidos por direitos autorais, sem pagar pelo licenciamento.
Polêmica 2: pessoas reais (públicas ou não) também foram simuladas pela IA do Character AI.
Polêmica 3: boa parte do público era de adolescentes, o que gerou polêmica por causar dependência emocional nos usuários.
Polêmica 4: isso chegou a incluir até conteúdo… adulto.
O declínio da Character não começou com a saída dos clientes, mas com a saída dos próprios founders. Em 2024, o Google pagou US$ 2,7 bi para levar os fundadores Noam Shazeer e Daniel de Freitas (ex-Googlers) e outras dezenas de funcionários.
A empresa hoje tem uma dívida de algo entre US$ 50-100 milhões e ergueu a plaquinha de vende-se para tentar recuperar. Por enquanto, o único interessado foi a Disney, que ofereceu meros US$ 20 milhões por parte dos ativos. Se não aparecer ninguém para cobrir o lance, a plataforma deve ter o mesmo destino que…
Babylon Health: triagem médica por IA, valia ~US$ 2 bi, faliu em 2023
Olive AI: automação de processos hospitalares, valia ~US$ 4 bi, fechou em 2023
iLearningEngines: educação corporativa com IA, valia ~US$ 1,4 bi, faliu em 2024
Builder.ai: desenvolvimento de software “com IA”, valia ~US$ 1,5 bi, faliu em 2025
Enquanto empresa de tech com marca conhecida, base fiel e caixa no vermelho costuma ter destino certo, o caso dessas todas é diferente por um motivo simples: a Bending Spoons até hoje não comprou uma empresa que já era AI-First.

BRASIL ADENTRO
→ Eve Air Mobility, a asa o braço de eVTOL da Embraer mira as primeiras entregas comerciais dos veículos para 2028.
→ Bilheteria Digital, o serviço de ingressos BR, foi vendido para a Ticketmaster por ~R$ 150 milhões.
→ The Yield Lab Latam, a gestora de agtechs, vai lançar seu primeiro fundo dedicado ao Brasil e pretende captar R$ 200 milhões.
→ Governo Federal passa a obrigar bancos, fintechs e operadoras a oferecer atendimento humano todos os dias a partir de 2/11.

STATS
US$ 50 bi
é a receita anualizada da OpenAI esse ano. Parece muito, até você descobrir que o mercado esperava US$ 70 bilhões - o que causou um tsunami nas ações da indústria:
→ Oracle recuou -5,5%
→ Nvidia caiu -2,9%
→ CoreWeave caiu -8%
→ Intel caiu -5,3%
O errinho de US$ 20 bi no forecast que apagou US$ 500 bilhões do mercado.
Para completar o caldeirão, a OpenAI negocia uma rodada a US$ 1,4 tri de valuation. Com receita anualizada de US$ 70 bi, seriam 20x. Com os US$ 50 bi que a própria empresa informou aos investidores, são 28x. O valuation não mudou, mas o preço ficou 40% mais caro.
A nova promessa é chegar aos 70 até dezembro, valor que todo mundo já considerava concreto. O IPO ficou pra depois de 2026.
via Financial Times / Reuters
CONTRA DADOS NÃO HÁ ARGUMENTOS
Paradoxo de Jevons: tokens caindo, compute subindo
Preço do aluguel de GPUs (H100) x Índice de gastos com tokens

via a16z
Desde julho, o preço dos tokens despencou e o aluguel de GPU subiu. É o Paradoxo de Jevons em ação: quanto mais barato fica usar IA, mais todo mundo usa, e a demanda por chips cresce em vez de cair.
↓ Token: o índice de preço caiu de ~1,65 em julho para ~1,00 no fim de agosto, uma queda de cerca de 40%
↑ GPU: o aluguel de uma H100 subiu de ~US$ 2,30 para ~US$ 2,75 por hora no mesmo período, alta de quase 20%
Até junho, as duas curvas andavam juntas. Agora se separaram: a IA fica mais barata para quem usa e mais cara para quem fornece a infraestrutura. Quem ganha é quem aluga o chip (cof cof Nvidia).
PS: o nome do Jev faz referência direta ao Paradoxo de Jevons.
O token mais barato impacta seu negócio?
DROP LIKE IT'S HOT
[para assistir] Your Attention Please, o documentário sobre Frances Haugen, a whistleblower que enfrentou o Facebook.
[para ouvir] a entrevista de Zuck e Wang no podcast do Collison, tomando uma Guinness e falando sobre a aposta de US$ 100 bilhões da Meta em IA
[para beber] O ranking de quais convidados tomaram mais Guinness durante o podcast de Collison, Cheeky Pint.
[para aprender] com David Velez, founder e CEO do Nubank, sobre construir o maior banco digital do mundo, com 140 mi clientes.
[para se candidatar] Anthropic procura um assistente executivo que cuide de agenda, inbox e viagens com salário de £145 mil/ano (vaga para humanos).


